Quando alguém procura terapia, quase sempre traz uma pergunta, mesmo que não dita:
por que é tão difícil controlar o que eu sinto ou penso?
Grande parte do nosso sofrimento nasce justamente dessa tentativa. A gente tenta empurrar pensamentos para longe, evitar emoções, apagar lembranças. Só que, quanto mais lutamos contra o que sentimos, mais ficamos presos nisso.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) surgiu a partir dessa constatação. Ela não tenta “consertar” pensamentos nem transformar emoções difíceis em emoções positivas. O foco não é eliminar o sofrimento, e sim mudar a relação que temos com ele. A ACT faz parte de uma linha de pesquisa sólida dentro da psicologia comportamental e da Teoria das Molduras Relacionais.
Hoje, é uma das abordagens mais estudadas no mundo, com décadas de pesquisas, revisões sistemáticas e metanálises envolvendo ansiedade, depressão, dor crônica, dependência, estresse e qualidade de vida.
Este texto é um convite para entender essa abordagem de forma simples, sem distorcê-la.
A ideia central da ACT: o problema não é sentir, é se prender ao que você sente
A ACT parte de um ponto importante: muitos sofrimentos aparecem quando ficamos psicologicamente inflexíveis. Isso significa reagir sempre da mesma forma a pensamentos e emoções, como se não houvesse escolha.
Não é o pensamento “não sou bom o bastante” que atrapalha alguém.
É quando, por causa dele, a pessoa evita situações, deixa de tentar algo importante ou se afasta do que valoriza.
A ACT propõe uma mudança de perspectiva: em vez de tentar controlar o mundo interno, aprendemos a nos relacionar com ele de um jeito diferente. Isso envolve ganhar flexibilidade, o que significa sentir o que sentimos sem nos confundir com isso e, ao mesmo tempo, agir de acordo com o que importa.
É uma das bases da ACT: parar de lutar contra a experiência interna para conseguir viver a própria vida com mais liberdade.
O Hexaflex: seis processos que mudam a forma como lidamos com nossas experiências
A ACT organiza seu trabalho em seis processos centrais, que juntos promovem flexibilidade psicológica:
Aceitação – permitir a experiência interna, em vez de travar uma luta constante contra ela.
Desfusão cognitiva – reduzir o domínio literal dos pensamentos, aprendendo a vê-los como pensamentos.
Atenção ao momento presente – estar com o que acontece agora, e não perdido no passado ou no futuro.
Self como contexto – observar pensamentos e emoções sem se misturar a eles.
Valores – direções de vida escolhidas por você, que funcionam como um norte.
Ação comprometida – passos concretos alinhados a esses valores, mesmo na presença de desconforto.
Esses processos têm evidência científica e ajudam a explicar por que a ACT funciona.
A ACT funciona?
Sim. E isso é sustentado por estudos de boa qualidade.
Metanálises e revisões sistemáticas mostram sua eficácia em diferentes problemas psicológicos e condições de saúde. Entre elas:
- A-Tjak et al. (2015): eficácia geral da ACT em sofrimento psicológico.
- Twohig & Levin (2017): bons resultados para ansiedade.
- Gloster et al. (2020): revisão ampla mostrando eficácia em diversos transtornos.
O ponto comum é simples:
a ACT ajuda pessoas a viverem melhor, e não apenas a reduzirem sintomas.
Como a ACT funciona na prática?
A ACT não pede que você pense positivo, elimine emoções difíceis ou persiga uma “melhor versão de si mesmo”.
Ela trabalha em dois eixos:
- Mudar a relação com pensamentos e emoções
Você aprende a notar pensamentos sem se confundir com eles e a lidar com emoções de forma mais flexível. Menos luta, mais clareza.
- Construir uma vida guiada por valores
A ACT é profundamente prática. Define valores, planeja ações pequenas e consistentes e trabalha para reconectar a vida ao que realmente importa.
A mudança vem menos do controle emocional e mais de agir apesar da emoção.
O que esperar de um processo terapêutico com ACT
A terapia costuma incluir:
- conversas que conectam a sua história às suas escolhas
- exercícios para observar a experiência interna
- práticas de aceitação e desfusão
- identificação de valores
- ações concretas alinhadas a esses valores
A linguagem é direta e humana, sempre apoiada em evidências.
O que a ACT não é
- não é pensamento positivo.
- não é controle emocional.
- não é uma versão “mística” de mindfulness.
- não é coaching.
- e não é passividade.
Na ACT, aceitar não é desistir. É parar de gastar energia tentando controlar o que não pode ser controlado para investir no que realmente importa.
Por que a ACT pode ajudar você
- você não precisa eliminar ansiedade para agir com coragem.
- não precisa eliminar tristeza para encontrar sentido.
- não precisa controlar cada pensamento para viver com direção.
A ACT parte de algo muito humano: sentir faz parte da vida.
Mas sofrer sozinho não precisa fazer.
Se você quer entender melhor esses processos e como eles aparecem na sua vida, a psicoterapia baseada em ACT pode ser um caminho cuidadoso, consistente e transformador.
Atendo presencialmente em Belo Horizonte e online para todo o Brasil.
